Alfabetizao Ecolgica


O desafio da educao no prximo sculo
Fritjof Capra


Desde sua introduo, no comeo dos anos 80, o conceito de sustentabilidade tem sido distorcido, cooptado e mesmo banalizado quando usado sem o contexto ecolgico que lhe d o sentido adequado. Portanto, acredito ser importante refletir por um instante sobre o que sustentabilidade realmente significa.

O que sustentvel em uma comunidade sustentvel no o crescimento econmico, o desenvolvimento, a fatia de mercado ou a vantagem competitiva, mas toda a teia da vida, da qual todos ns dependemos. Em outras palavras, uma comunidade sustentvel estaria desenhada de uma forma que a sua vida, negcios, economia, estruturas fsicas e tecnologias no interferissem na habilidade que a natureza tem de sustentar a vida.

O primeiro passo nessa caminhada, naturalmente, compreender os princpios de organizao que os ecossistemas desenvolveram para sustentar a teia da vida. Essa compreenso o que eu chamo alfabetizao ecolgica.

Os ecossistemas do mundo natural so comunidades sustentveis de plantas, animais e microorganismos. No h lixo nestas comunidades ecolgicas: o resduo de uma espcie o alimento da outra. Assim, a matria percorre um ciclo contnuo na teia da vida. A energia que alimenta os ciclos ecolgicos vem do sol, e a diversidade e a cooperao entre os membros das cadeias a fonte da resistncia da comunidade.

O Centro de Alfabetizao Ecolgica em Berkley dedica-se a adotar a experincia da compreenso do mundo natural na educao fundamental. Ser ecoalfabetizado significa, no nosso ponto de vista, compreender os princpios bsicos da ecologia e ser capaz de aplic-los na vida cotidiana das comunidades humanas. Particularmente, ns acreditamos que os princpios da ecologia devem nos guiar para a criao de comunidades sustentveis. Em outras palavras a alfabetizao ecolgica oferece um sistema de conhecimento ecolgico para a reforma educacional.

A palavra ecologia, como vocs sabem, veio do grego oikos (casa). Ecologia o estudo de como a casa Terra funciona. Mais precisamente, o estudo das relaes que interligam todos membros da casa Terra.

Sistemas Vivos
A teoria mais apropriada para a ecologia a teoria dos sistemas vivos. Esta teoria que hoje est em grande evidncia, tem suas razes em diversos campos cientficos que se desenvolveram durante a primeira metade do sculo - biologia organsmica, psicologia gestalt, ecologia, teoria geral dos sistemas e ciberntica.

Em todos estes campos cientistas exploraram sistemas vivos, o que significa integrar partes cujas propriedades no podem ser reduzidas em pequenas partes. Embora ns possamos perceber partes em cada sistema vivo, a natureza do todo sempre diferente da mera soma das partes.

A teoria dos sistemas envolve uma nova maneira de ver o mundo e uma nova maneira de pensar, conhecida como pensamento sistmico. Significa pensar em termos de relaes, conexes e contextos.
O pensamento sistmico alcanou um outro nvel nos ltimos vinte anos com o desenvolvimento de uma nova cincia da complexidade, incluindo toda uma nova linguagem matemtica e um novo conjunto de conceitos para descrever a complexidade dos sistemas vivos.
Exemplos destes sistemas so abundantes na natureza. Cada organismo - animal, planta, microorganismo ou ser humano - um todo integrado, um sistema vivo. Partes de organismos - folhas ou clulas - so tambm sistemas vivos. No mundo vivo vemos sistemas abrigando outros sistemas. E sistemas vivos incluem comunidades de organismos. Estes podem ser sistemas sociais - uma famlia, uma escola, uma cidade - ou ecossistemas.

Os sistemas vivos so todos cujas estruturas especficas surgem das interaes e interdependncias entre as suas partes. A teoria dos sistemas nos diz que todo sistema vivo divide um conjunto de propriedades comuns e princpios de organizao. Isto significa que o pensamento sistmico pode ser utilizado para integrar disciplinas acadmicas e descobrir similaridades entre fenmenos de diferentes escalas: a criana, a classe, a escola, o bairro e as comunidades e ecossistemas vizinhos.

Os princpios da ecologia so os princpios de organizao que so comuns a todo sistema vivo. Isso poderia ser dito assim: existem diferentes padres de vida. E de fato, em comunidades humanas eles podem ser chamados princpios de comunidade. claro que h muitas diferenas entre ecossistemas naturais e comunidades humanas. No h cultura nos ecossistemas, no h conscincia, justia nem equidade. Ento no podemos aprender algo sobre estes valores humanos estudando os ecossistemas naturais. O que ns podemos aprender como viver de forma sustentvel. Em mais de trs bilhes de anos de evoluo os ecossistemas se organizaram para maximizar a sustentabilidade. Esta sabedoria da natureza a essncia da alfabetizao ecolgica.

A teia da vida
Ento, como os ecossistemas se auto-organizam? Bem, a primeira coisa que percebemos quando observamos um ecossistema que no se trata de um simples conjunto de espcies, e sim uma comunidade, o que significa que os seus membros dependem uns dos outros. Eles esto todos interconectados em uma vasta rede de relaes, a teia da vida.

Compreender ecossistemas nos leva ao estudo de relaes. Este um aspecto-chave do pensamento sistmico. Implica uma mudana no foco, do objeto para a relao. Uma comunidade vibrante plena de mltiplas relaes entre seus membros. Nutrir a comunidade significa nutrir essas relaes.

Agora, entender relaes no fcil para ns, porque algo que vai contra a cincia tradicional da cultura ocidental. A cincia mede e pesa coisas. Mas relaes no podem ser pesadas nem medidas, devem ser mapeadas. Voc pode desenhar um mapa de relaes, interconectando diferentes membros e diferentes membros da comunidade. Quando faz isto, descobre certas configuraes de relaes que se repetem. A estas configuraes damos o nome de padres. O estudo das relaes nos leva ao estudo de padres.

Matria e Forma
E aqui ns descobrimos uma tenso que bem caracterstica da cincia e filosofia ocidentais, atravs dos anos. uma tenso entre duas maneiras de compreender a natureza, o estudo da matria e o estudo da forma. Essas duas maneiras so bastante diferentes. O estudo da matria comea com a questo: "do que feito". Isto leva para uma noo de elementos fundamentais, blocos de construo que so medidos e quantificados. O estudo da forma pergunta: "qual o padro?". E este leva a uma noo de ordem, organizao e relaes. Em vez de quantidade, envolve qualidade, em vez de medida, envolve mapeamento.

Ento, essas so duas linhas de pesquisa muito diferentes, que competiram entre si na tradio cientfica e filosfica. Na maior parte do tempo, o estudo da matria - de quantidades e constituio - foi dominante. Mas nas ltimas dcadas a ascenso do pensamento sistmico trouxe o estudo da forma - dos padres e das relaes - para a discusso novamente. A principal nfase na teoria do caos e da complexidade est nos padres. Os estranhos atratores da teoria do caos, os fractais da geometria fractal - todos esses so padres visuais. Toda essa nova matemtica da complexidade essencialmente uma matemtica de padres.

Arte e Educao
Como disse anteriormente, quando voc estuda um padro necessita mapear um conjunto de relaes, enquanto estudar a matria estudar as quantidades que podem ser medidas. Compreender padres requer visualizao e mapeamento. Esta a razo pela qual sempre o estudo dos padres esteve na vanguarda, os artistas contriburam significativamente para o avano da cincia. Talvez os dois exemplos mais clebres so Leonardo da Vinci, que dedicou sua vida a estudar padres, e o poeta alemo Goethe, que no sculo XVIII, fez contribuies significativas para a biologia ao estudar padres.

O estudo dos padres, portanto, central para a ecologia. Para educadores, esta percepo deve ser tambm importante porque ela abre a porta para integrar as artes ao currculo. Dificilmente existe algo mais eficiente que as artes - artes visuais, msica ou artes performticas - para desenvolver e refinar as habilidades naturais das crianas para reconhecer e expressar padres. Assim as artes podem ser uma poderosa ferramenta para ensinar o pensamento sistmico, alm de realar a dimenso emocional que cada vez mais reconhecida como um componente essencial do processo de aprendizagem.

Os princpios da ecologia
Quando o pensamento sistmico aplicado ao estudo dos mltiplos relaes que interligam os membros da casa-Terra, alguns princpios bsicos podem ser reconhecidos. Eles podem ser chamados de princpios da ecologia, princpios de sustentabilidade, ou princpios de comunidade, ou voc poderia cham-los de princpios bsicos da vida. Ns necessitamos de um currculo que ensine s nossas crianas esses princpios fundamentais da vida:
que um ecossistema no produz lixo, o lixo de uma espcie o alimento da outra;
que a matria cicla continuamente atravs da teia da vida;
que a energia que alimenta os ciclos ecolgicos vem do sol;
que a diversidade assegura a sobrevivncia;
que a vida, desde o seu comeo h mais de trs bilhes de anos atrs, no expandiu-se pelo planeta atravs da competio, mas atravs da cooperao, parceria e trabalho em rede.

Ensinar conhecimento ecolgico, que tambm sabedoria ancestral, ser o papel mais importante da educao no prximo sculo.
Reforma do sistema escolar

Como tem sua base intelectual no pensamento sistmico, a alfabetizao ecolgica oferece uma poderosa ferramenta para sistematizar a reforma da ensino discutida entre educadores. Uma reforma "sistmica" da escola baseada, essencialmente em duas idias: uma nova viso do processo de aprendizagem e uma nova viso da liderana.

Recentes pesquisas em neurocincia e cincias da cognio resultaram em uma nova compreenso do processo de aprendizagem, baseada na viso de que o nosso crebro um sistema complexo, fortemente adaptativo e auto-poitico. A nova compreenso reconhece uma construo ativa do conhecimento, na qual toda nova informao reportada a experincias passadas em uma busca constante por padres e significado; assim vemos a importncia de uma aprendizagem a partir da experincia onde diversas aprendizagens envolvem mltiplas inteligncias; e os contextos emocional e social, que onde comea o conhecimento.

Uma nova compreenso do processo de aprendizagem necessita estratgias institucionais. Particularmente, necessrio redesenhar e integrar o currculo, enfatizando conhecimentos contextuais, para que cada disciplina seja percebida como recursos que servem a um foco central.

Uma maneira ideal de conseguir esta integrao o mtodo de aprendizagem por projetos que consiste a facilitao de experincias de aprendizagem que coloquem o estudante dentro de um mundo complexo, projetos que estejam no universo cotidiano dos estudantes, atravs dos quais eles desenvolvam aes e apliquem seus conhecimentos e habilidades.

O jardim escolar

No centro para a alfabetizao ecolgica, ns vivenciamos que cultivar um jardim escolar e us-lo como um recurso para conseguir alimentos para a merenda um projeto perfeito para experimentar o pensamento sistmico e os princpios da ecologia na prtica, e integrar o currculo. A jardinagem reconecta as crianas aos princpios da alimentao - e portanto, para os princpios da vida - enquanto integra e enriquece qualquer atividade da escola.

No jardim, ns aprendemos sobre os ciclos naturais da comida e os integramos com outros ciclos como o da plantao, colheita, compostagem e reciclagem. Dentro desta prtica ns tambm aprendemos que o jardim um todo envolvido em sistemas maiores que so redes vivas com seus prprios ciclos. O ciclo alimentar est interconectado com estes ciclos maiores - o ciclo da gua, o ciclo das estaes, e assim por diante - todos eles ligados rede planetria da vida.

Atravs da jardinagem ns tambm nos tornamos conscientes de como somos parte da teia da vida, e a experincia ecolgica nos permite sentir um sentido de lugar. Ns nos conscientizamos de como estamos envolvidos em um ecossistema, em uma paisagem com fauna e flora particulares ou em um sistema social e cultural. "Lugares", escreve David W. Orr, "so laboratrios de diversidade e complexidade, combinando funes sociais e um processo natural... O estudo do lugar
nos permite ampliar nosso foco para examinar as interrelaes entre as disciplinas e aumentar nossa percepo do tempo."

Para as crianas, estar no jardim algo mgico. Como um dos nossos professores relatou "uma das coisas mais empolgantes do jardim que criamos um local mgico para crianas que no teriam esse contato em nenhuma outra parte, que no sentiriam a Terra nem as plantas que crescem. Voc pode ensinar o que quiser, e estar ali, vendo crescer, cozinhando e comendo, essa a ecologia que toca o corao deles e que far diferena..."

Crescimento e Desenvolvimento

No jardim, ns observamos e vivenciamos o ciclo da vida de um organismo - o ciclo de nascimento, crescimento, maturidade, morte e nascimento da prxima gerao. No jardim ns experimentamos crescimento e desenvolvimento diariamente, e a compreenso de crescimento e desenvolvimento essencial, no somente para a jardinagem, mas sobretudo para a educao. Enquanto as crianas aprendem que aquele trabalho no jardim da escola muda com o desenvolvimento e maturao das plantas, os mtodos pedaggicos dos professores e seu discurso mudam com o desenvolvimento e a maturidade dos estudantes.

Desde o trabalho pioneiro de Jean Piaget, Rudolf Steiner e Maria Montessori um amplo consenso emergiu entre cientistas e educadores sobre a revelao das funes cognitivas no crescimento infantil. Parte deste consenso o reconhecimento que um rico e multisensorial ambiente de aprendizagem - as formas e as texturas, as cores, os aromas, e os sons do mundo real - essencial para o completo desenvolvimento cognitivo e emocional da criana.

Aprender no jardim da escola aprender no mundo real no que h de melhor. Isto benfico para o desenvolvimento individual do estudante e da comunidade escolar, e esta uma das melhores formas das crianas se tornarem ecologicamente alfabetizadas e portanto capazes de contribuir na construo de um futuro sustentvel.

Liderana Compartilhada

obvio que a integrao do currculo escolar a partir de um trabalho de horta ou qualquer outro projeto ambiental s ser possvel se a escola se tornar uma verdadeira comunidade de aprendizagem. As relaes entre as vrias disciplinas s ficam claras se houver relaes humanas correspondentes entre professores e administradores escolares.

Em uma comunidade de aprendizagem professores, estudantes, administradores e famlia esto interconectados em uma rede de relaes, trabalhando juntos para facilitar a aprendizagem. O conhecimento no flui de cima para baixo, mas h um intercmbio cclico de informaes. O foco no aprendizado e qualquer um do sistema , ao mesmo tempo, professor e aluno. Feedbacks so intrnsecos ao processo de aprendizagem, como uma chave para avaliar o processo. O pensamento sistmico crucial para entender o funcionamento das comunidades de aprendizagem. De fato, como eu j mencionei, os princpios da ecologia podem tambm ser vistos como princpios das comunidades.

Finalmente, a compreenso sistmica da aprendizagem, um novo desenho do currculo e novos padres de qualidade s sero possveis com uma nova prtica de liderana. Essa nova maneira de liderana inspirada na compreenso de uma importante propriedade dos sistemas vivos, que s recentemente foi identificada e explorada. Todo sistema vivo ocasionalmente atravessa fases de instabilidade, na qual algumas de suas estruturas quebram enquanto novas estruturas emergem. Este estabelecimento espontneo de ordem - de novas estruturas e novas formas de comportamento - uma das caractersticas da vida. Em outras palavras, criatividade - a gerao de formas que so sempre novas - uma propriedade de todos sistemas vivos.

Liderana, portanto, consiste em uma grande escala contnua de facilidades para emergir novas estruturas e incorpor-las no que elas tm de melhor para o desenho da organizao. Este tipo de "liderana sistmica" no limitado a indivduos sozinhos, mas pode ser compartilhado e a responsabilidade ento torna-se uma capacidade do conjunto de indivduos

Componentes da alfabetizao ecolgica

Isto me leva a concluir minha fala. Eu tenho tentado mostrar para voc como a forma do pensamento sistmico intelectual essencial da alfabetizao ecolgica, a estrutura conceitual que nos permite integrar vrios componentes. Vou resumir estes componentes:
entender os princpios da ecologia, experenciando-os na natureza e deste modo adquirindo o senso de lugar;
incorporar as inspiraes vindas do novo aprendizado que enfatiza a pesquisa das crianas em padres e significados;
implementar os princpios da ecologia que alimentam o aprendizado comunitrio, facilitar a emergncia e compartilhar lideranas;
integrar o currculo atravs de projetos de aprendizagem.

Como nosso sculo est acabando e ns vamos na direo do incio do novo milnio, a sobrevivncia da humanidade depende de nossa habilidade para entender os princpios da ecologia e viver de acordo com eles. Esta a iniciativa que transcende todas as diferenas de raa, cultura ou classe. A Terra nossa casa comum e criar um mundo sustentvel para nossas crianas e para as futuras geraes nossa tarefa comum.

* Texto de 1999.





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